quarta-feira, 7 de outubro de 2009

"LAURA"

Suplemento Mil Folhas Novela de Tema Africano
Sábado, 07 de Fevereiro de 2004



Jorge Heitor

As terras dos humbes, cuamatos e cuanhamas, nas proximidades do rio
Cunene, no Sul de Angola, durante o princípio do século XX, são o
cenário da novela "Laura", agora lançada em Lisboa pelo jornalista
Sérgio Soares, que trabalha na Cooperação Portuguesa.
Na senda de obras de inspiração africana, como "Baía dos Tigres" e
"Equador", que nesta última década têm feito carreira no mundo
lusófono, Soares - que há 48 anos nasceu em Malanje - romanceia
algumas campanhas de pacificação ocorridas nos tempos de El-Rei D.
Carlos, quando os portugueses estavam a entrar em choque naquela
zona com os interesses alemães instalados naquela que viria a ser a
Namíbia.
Não sendo propriamente um romance histórico, pois que não tem fôlego
para tanto, aconselhando antes a que nos fiquemos pela designação
mais modesta de novela, "Laura" faz-nos uma vez mais reflectir sobre
o nosso passado relativamente recente, quando em 1900 ou 1907
andámos a tentar na África uma fixação que não havíamos conseguido
mais cedo.
Obra de especial interesse para os que viveram em Angola ou que
gostam de se debruçar sobre a expansão de Portugal no mundo, o livro
leva-nos a reflectir sobre a tacanhez de muitas mentalidades que
ainda existiam no início do século XX, incapazes de uma perfeita
permuta com outras civilizações.
O luso-tropicalismo foi muito mais um desejo de algumas mentes
realativamente liberais do que uma realidade bem enraizada na
maioria da nação, motivo pelo qual a colonização falhou e não
conseguimos construir as sociedades idílicas que certas pessoas
desejariam.
Se os levantamentos cartográficos de todo o hinterland de Luanda,
Benguela e Moçâmedes tivessem sido feitos mais cedo, sem o atraso
crónico do povo lusitano, talvez que em 1905 os cuanhamas já
estivessem muito mais bem integrados num mundo de negros e de
brancos, sem necessidade de campanhas sangrentas para os submeter.
No entanto, ninguém é perfeito; pelo que nos fica a saudade de tudo
aquilo que na África poderíamos ter feito e que muitas vezes não
chegámos a ser capazes de fazer, apesar da existência de homens como
António Enes e Norton de Matos.

Laura

Autor: Sérgio Soares
Editora: Miosótis
208 págs., Euros 15,00

2 Comentários:

Blogger Sérgio Soares disse...

Sou escritor de um só livro! E ainda por cima, a editora faliu e já não há exemplares diponíveis na maior parte das livrarias. A minha autoestima literária e o meu orgulho ficaram de rastos... Acho que merecia melhor, mas já estou a recuperar!

7 de outubro de 2009 às 16:28  
Blogger Sérgio Soares disse...

Esta crítica literária está inquinada ideologicamente. O livro não é um ajuste de contas com a História! Nem sequer deve ser lido à luz do nosso quadro político actual. Às vezes um charuto é mesmo apenas um charuto..!

8 de outubro de 2009 às 17:42  

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