O regresso da França à NATO
A reintegração da França na estrutura de comando da NATO é considerada um erro colossal por vários analistas britânicos e norte-americanos por razões óbvias. Mas Portugal não tem motivos para contentamentos já que a primeira baixa provocada pelas ambições gaulesas foi precisamente o nosso país, que ocupava o posto de segundo comandante e agora desceu para a terceira posição no Comando Conjunto de Lisboa, e que ainda por cima passa a alternar posições no vice-comando e chefia de Estado-Maior com Espanha.
A França detém o Comando Conjunto de Oeiras e assumiu a 9 de Setembro, em Norfolk, a bordo do porta-aviões Eisenhower, um dos dois comandos "supremos" da NATO, pela primeira vez nos 60 anos de história da aliança atlântica.
Com este gesto, o "Comando aliado da Transformação" que estava nas mãos de um oficial norte-americano, tal como o segundo comando "supremo" do NATO, o das Operações, situado em Mons (Bélgica), passou para as mãos de um francês.
Quando o Presidente Nicolas Sarkozy falou inicialmente no eventual regresso da França às estruturas militares da NATO, em Junho de 2007, estabeleceu duas pré-condições: garantia de postos de comando seniores para oficiais franceses na Aliança e apoio dos EUA à sua tese de reforço da identidade de segurança europeia. O livro branco que mandou publicar sobre Defesa e Segurança Nacional confirma que o núcleo da ambição para Paris é tornar a Europa num dos actores principais na gestão de crises de segurança internacionais (com Paris a liderar, certamente!).
Para alcançar as suas pretensões, Paris quer redefinir as responsabilidades de segurança entre os EUA e a Europa, rejeitar claramente a ideia de que UE actue apenas como complemento civil da NATO, e uma forte preferência pela aquisição de tecnologias europeias de defesa (a quem interessará?) .
Em Junho de 2008, Sarkozy acrescentou às anteriores exigências um documento no qual se sublinham as iniciativas das politicas de Paris para a integração europeia, prevendo um quartel-general permanente em Bruxelas, o financiamento comum das operações militares e a troca de programas de formação para os militares europeus.
O ministro a Defesa português, Nuno Severiano Teixeira, não vê em nada disto qualquer desvalorização da posição e dos interesses de Portugal, enaltecendo mesmo as ambições de Paris na estrutura militar da NATO, que havia abandonado pela mão do General De Gaulle em 1966.
Uma coisa é, porém, certa, com os novos poderes distribuídos na Aliança a beneficiarem claramente Paris, a relação especial de Lisboa com Washington e Londres sai claramente enfraquecida, em beneficio da futura identidade europeia de defesa comum da qual o ministro português é fervoroso apoiante.
Portugal sempre conseguiu ter alguma visibilidade na NATO graças à importância da vertente Atlântica nas suas relações especiais com Washington e Londres. Com Paris reintegrada nos comandos militares da NATO, e a influenciar decididamente as suas decisões, teremos muito em breve um exército único europeu com planeamento franco-alemão, que obviamente não atenderá às especificidades portuguesas. Como exemplo, atente-se na futura aquisição e partilha de equipamento militar. Alguém acredita que os interesses específicos de Portugal (Brasil, África, Timor-Leste) serão defendidos face aos de Espanha? Isto, para não falar em planeamento estratégico comum ou doutrina para as futuras forças armadas da União europeia.
Para além disso, já existe também o problema da duplicação das missões da NATO e da União europeia. Conseguir permanente complementaridade de actuação não será sempre possível como no futuro se verá.
Naturalmente, Portugal está e deve continuar a ser um membro activo no núcleo duro da Política Europeia de Segurança, mas nunca desvalorizando a sua posição preferencial na Aliança Atlântica, sob pena de apenas ajudar a fortalecer o hinterland europeu. Ou seja, com um pezinho na PESC e outro bem plantado na NATO.
Em Junho, o ministro da Defesa, Severiano Teixeira, defendeu o oposto ao afirmar que "o momento político" actual favorece o "reforço de articulação" entre a União Europeia e a NATO e que o regresso da França à estrutura militar da Aliança é um "sinal" nesse sentido.
No final do "International Workshop on Global Security" em Istambul, na Turquia, Nuno Severiano Teixeira reiterou a ideia de que NATO e União Europeia (UE) são "os dois pilares essenciais de uma ordem de Defesa e Segurança multilateral" e que por isso é essencial "encontrar uma real articulação entre as duas organizações ao nível das suas prioridades, do emprego dos meios e da sua estratégia".
Quem parece não ter dúvidas estratégicas sobre o seu papel na área da Defesa e Segurança é o Brasil. Através do ministro da Defesa, Nelon Jobim, Brasília desmultiplica-se em iniciativas para relançar o país como grande actor na cena internacional.
Recentemente, Jobim defendeu uma aliança estratégica com Portugal para estabelecer conjuntamente com Angola uma posição concertada em relação à Área Internacional do Atlântico Sul e Equatorial.
"Precisamos de nos aliar a Portugal para estabelecermos com Angola uma linha unificada sobre a chamada Área", disse o ministro à Comissão de Relações Exteriores do Senado.
Segundo Jobim, uma posição concertada com os africanos em relação à "Área" é também um "tema estratégico brutal" e passa por uma aliança com Portugal.
A denominada "Área", um grande "corredor" entre as áreas de direito exclusivo, que é património da humanidade, tem imensas riquezas minerais.
É rica em manganésio, ferro, níquel, cobre, cobalto, titânio, alumínio e dispõe de uma valiosa biodiversidade, como uma bactéria que produz sangue humano e está a ser estudada pelos japoneses, segundo o ministro.
O Brasil defende que os países do Atlântico Sul se articulem e se estruturem para desenvolverem pesquisas nesses ambientes marinhos de águas profundas e até mesmo explorações conjuntas.
Um ponto que suscita preocupações é a instalação de módulos de exploração na "Área" por outros países, o que vai implicar questões de defesa, cuidados com o meio ambiente e possíveis alterações de rotas de navegação.
O Governo brasileiro teme, por exemplo, que países africanos e sul-americanos venham a sofrer prejuízos causados por mudanças das linhas marítimas de comércio.
Brasil e Portugal já acertaram também que vão ajudar países africanos na questão dos limites exteriores da sua plataforma continental.
Como nenhum dos dois países consegue algo significativo nesta parte do Atlântico Sul, (o Brasil reconhece que precisa de Portugal), terão de se unir neste novo ambicioso plano gizado por Brasília. Só por ciúmes Lisboa poderia “encanar a perna a rã” e pretender estar interessada sem nada fazer.
SRS.
A França detém o Comando Conjunto de Oeiras e assumiu a 9 de Setembro, em Norfolk, a bordo do porta-aviões Eisenhower, um dos dois comandos "supremos" da NATO, pela primeira vez nos 60 anos de história da aliança atlântica.
Com este gesto, o "Comando aliado da Transformação" que estava nas mãos de um oficial norte-americano, tal como o segundo comando "supremo" do NATO, o das Operações, situado em Mons (Bélgica), passou para as mãos de um francês.
Quando o Presidente Nicolas Sarkozy falou inicialmente no eventual regresso da França às estruturas militares da NATO, em Junho de 2007, estabeleceu duas pré-condições: garantia de postos de comando seniores para oficiais franceses na Aliança e apoio dos EUA à sua tese de reforço da identidade de segurança europeia. O livro branco que mandou publicar sobre Defesa e Segurança Nacional confirma que o núcleo da ambição para Paris é tornar a Europa num dos actores principais na gestão de crises de segurança internacionais (com Paris a liderar, certamente!).
Para alcançar as suas pretensões, Paris quer redefinir as responsabilidades de segurança entre os EUA e a Europa, rejeitar claramente a ideia de que UE actue apenas como complemento civil da NATO, e uma forte preferência pela aquisição de tecnologias europeias de defesa (a quem interessará?) .
Em Junho de 2008, Sarkozy acrescentou às anteriores exigências um documento no qual se sublinham as iniciativas das politicas de Paris para a integração europeia, prevendo um quartel-general permanente em Bruxelas, o financiamento comum das operações militares e a troca de programas de formação para os militares europeus.
O ministro a Defesa português, Nuno Severiano Teixeira, não vê em nada disto qualquer desvalorização da posição e dos interesses de Portugal, enaltecendo mesmo as ambições de Paris na estrutura militar da NATO, que havia abandonado pela mão do General De Gaulle em 1966.
Uma coisa é, porém, certa, com os novos poderes distribuídos na Aliança a beneficiarem claramente Paris, a relação especial de Lisboa com Washington e Londres sai claramente enfraquecida, em beneficio da futura identidade europeia de defesa comum da qual o ministro português é fervoroso apoiante.
Portugal sempre conseguiu ter alguma visibilidade na NATO graças à importância da vertente Atlântica nas suas relações especiais com Washington e Londres. Com Paris reintegrada nos comandos militares da NATO, e a influenciar decididamente as suas decisões, teremos muito em breve um exército único europeu com planeamento franco-alemão, que obviamente não atenderá às especificidades portuguesas. Como exemplo, atente-se na futura aquisição e partilha de equipamento militar. Alguém acredita que os interesses específicos de Portugal (Brasil, África, Timor-Leste) serão defendidos face aos de Espanha? Isto, para não falar em planeamento estratégico comum ou doutrina para as futuras forças armadas da União europeia.
Para além disso, já existe também o problema da duplicação das missões da NATO e da União europeia. Conseguir permanente complementaridade de actuação não será sempre possível como no futuro se verá.
Naturalmente, Portugal está e deve continuar a ser um membro activo no núcleo duro da Política Europeia de Segurança, mas nunca desvalorizando a sua posição preferencial na Aliança Atlântica, sob pena de apenas ajudar a fortalecer o hinterland europeu. Ou seja, com um pezinho na PESC e outro bem plantado na NATO.
Em Junho, o ministro da Defesa, Severiano Teixeira, defendeu o oposto ao afirmar que "o momento político" actual favorece o "reforço de articulação" entre a União Europeia e a NATO e que o regresso da França à estrutura militar da Aliança é um "sinal" nesse sentido.
No final do "International Workshop on Global Security" em Istambul, na Turquia, Nuno Severiano Teixeira reiterou a ideia de que NATO e União Europeia (UE) são "os dois pilares essenciais de uma ordem de Defesa e Segurança multilateral" e que por isso é essencial "encontrar uma real articulação entre as duas organizações ao nível das suas prioridades, do emprego dos meios e da sua estratégia".
Quem parece não ter dúvidas estratégicas sobre o seu papel na área da Defesa e Segurança é o Brasil. Através do ministro da Defesa, Nelon Jobim, Brasília desmultiplica-se em iniciativas para relançar o país como grande actor na cena internacional.
Recentemente, Jobim defendeu uma aliança estratégica com Portugal para estabelecer conjuntamente com Angola uma posição concertada em relação à Área Internacional do Atlântico Sul e Equatorial.
"Precisamos de nos aliar a Portugal para estabelecermos com Angola uma linha unificada sobre a chamada Área", disse o ministro à Comissão de Relações Exteriores do Senado.
Segundo Jobim, uma posição concertada com os africanos em relação à "Área" é também um "tema estratégico brutal" e passa por uma aliança com Portugal.
A denominada "Área", um grande "corredor" entre as áreas de direito exclusivo, que é património da humanidade, tem imensas riquezas minerais.
É rica em manganésio, ferro, níquel, cobre, cobalto, titânio, alumínio e dispõe de uma valiosa biodiversidade, como uma bactéria que produz sangue humano e está a ser estudada pelos japoneses, segundo o ministro.
O Brasil defende que os países do Atlântico Sul se articulem e se estruturem para desenvolverem pesquisas nesses ambientes marinhos de águas profundas e até mesmo explorações conjuntas.
Um ponto que suscita preocupações é a instalação de módulos de exploração na "Área" por outros países, o que vai implicar questões de defesa, cuidados com o meio ambiente e possíveis alterações de rotas de navegação.
O Governo brasileiro teme, por exemplo, que países africanos e sul-americanos venham a sofrer prejuízos causados por mudanças das linhas marítimas de comércio.
Brasil e Portugal já acertaram também que vão ajudar países africanos na questão dos limites exteriores da sua plataforma continental.
Como nenhum dos dois países consegue algo significativo nesta parte do Atlântico Sul, (o Brasil reconhece que precisa de Portugal), terão de se unir neste novo ambicioso plano gizado por Brasília. Só por ciúmes Lisboa poderia “encanar a perna a rã” e pretender estar interessada sem nada fazer.
SRS.


1 Comentários:
Portugal não investe no sector da defesa e devendo 80% da divida neste sector, as OGMA(Oficinas Gerais de Material Aeronautico), a empresa que maior rendimento conseguía para o sector da defesa nacional, encontra-se fora do mercado internacional, bem como ao nível interno pouco realizam. A entrada da França na NATO, sem comando próprio, mas integrado na estrutura da NATO, com autonomia, pressupõe a gestão de áreas: Atlântico Sul( eixo-Paris-Berlin-Brasilia) e Portugal.
Brasilia ? Mas o Brasil não faz parte da NATO ? Pois mas a venda de material militar ao Brasil é garantida pela França e Alemanha, tendo como contra-partida a presença da dos dois países no projecto espacial brasileiro e seu desenvolvimento, contra-partidas económicas, que Portugal não pode garantir, mas que a Espanha já aderíu. Básicamente o nosso papel ao nível externo, passa pela 'cooperação mendigada'.
Com a eventual entrada da Rússia na NATO, essencial para a reforma das instituições internacionais, é possível 'a paz no seio dos ex-países da URSS, mas inevitável a guerra no Paquistão'. O reforço de elementos militares Franceses no Afeganistão e abertura de corredores e cedência de bases pelos russos para os efectivos militares americanos da ISAF, prevê a criação de uma zona tampão a Norte e outra a sul efectuada pelo exército indiano. É possível antever a desfragmentação territorial do Paquistão, como forma para a manutenção da paz no Caucaso, ex-Países da URSS, Afeganistão, India e Médio-Oriente ? Encontramo-nos perante o eventual consenso internacional para o reforço da acção das Nações Unidas, como elemento regulador ao nível económico, paz, ecológico e político-humanitário. O alargamento da NATO e a sua reforma vai torná-la no braço militar da ONU, se bem que o objetivo desejado fosse uma instituição militar própria, mas os Estados não abdicam da sua própria política externa.
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