quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Biafra/40 anos: A primeira grande tragédia humanitária com cobertura mediática


Há 40 anos, a 15 de Janeiro, o Biafra deixou de existir, mergulhado na maior tragédia humanitária que o mundo conhecera fora da Europa no século XX, sendo reintegrado na Nigéria.

A República do Biafra teve uma existência efeméra entre 30 de Maio de 1967 e 15 de Janeiro de 1970.

O Vaticano, Portugal e França foram os principais aliados do Biafra. O Reino Unido, antiga potência colonial, o Egipto e a URSS apoiavam a Nigéria.

A China também apoiou o Biafra, denunciando o apoio à Nigéria do "imperialismo revisionista", numa alusão à URSS.

A crise do Biafra começou em 1966 na sequência de uma tentativa falhada de golpe de Estado na Nigéria. A maioria dos oficiais superiores envolvidos pertencia à etnia Ibo (cristãos do Biafra), que representava a elite do país. No rescaldo do golpe 30 mil ibos foram massacrados pelos militares islâmicos.

Oito milhões de ibos viviam na região oriental da Nigéria que tinha como governador provincial o coronel Chukwuemeka Odumegwu (Emeka) Ojukwu, que declarou a independência da região a 30 de Maio de 1967.

Na resposta, as forças armadas nigerianas bombardearam e mataram indiscriminadamente soldados biafrenses e civis. A marinha da Nigéria estabeleceu um bloqueio marítimo que impedia o acesso a alimentos, medicamentos e armamento.

No pico da crise humanitária, cinco mil biafrenses morriam todos os dias de fome e doença. O Governo nigeriano agravou a situação ao proibir o auxílio da Cruz Vermelha Internacional.

Na sua curta existência, o Biafra foi a primeira nação africana a refinar o seu próprio petróleo, o que desagradou às multinacionais que ali operavam e que tinham as suas sedes em Lagos, a capital federal.

Um ataque da guerrilha contra pipelines da Shell-BP na região, onde o Reino Unido recolhia 20 por cento do seu petróleo proveniente da Nigéria, ditou as alianças das petrolíferas com o Governo de Lagos.

A guerra do Biafra foi o primeiro grande desastre humanitário provocado por um conflito de origem étnica, após o extermínio de judeus na Europa.

Foi também o primeiro conflito armado do século XX em África, entre africanos, e a primeira guerra onde a questão do acesso às fontes de energia (petróleo) teve um peso determinante. Por esse motivo, o Reino Unido foi a única potência ocidental que alinhou com o Governo Federal da Nigéria que era apoiado pela União Soviética.

O conflito e as suas consequências trágicas foi também o primeiro a receber ampla cobertura mediática internacional.

Em 1970, a catástrofe humanitária do Biafra assumia dimensões bíblicas. Quando a região foi reintegrada na Nigéria tinham morrido cerca de três milhões de pessoas e a imagem da tragédia eram os campos de refugiados com milhares de crianças famélicas.

Em 1980, o Governo nigeriano concedeu um perdão a Ojukwu, que agora goza de um estatuto de ex-estadista e vive confortavelmente em Enugu, a antiga capital do Biafra.

Confessando não sentir remorsos nem qualquer responsabilidade pelo que se passou, Ojukwu disse recentemente que se voltasse atrás "repetiria tudo", porque “todas as razões que levaram à secessão ainda não foram resolvidas e estão agravadas”.

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